Why so serious?

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Capítulo II.—Da bebida. São Clemente de Alexandria

O desgraçado miserável que expulsa a temperança da festa da sociabilidade, no entanto, pensa ser o beber em excesso a mais feliz das vidas; e sua vida não é nada senão algazarra, deboche, banhos, excessos, mictórios, preguiça e bebida. Podemos ver alguns deles, semi-embriagados a cambalear com sua bebida, vomitando uns nos outros em nome da boa camaradagem; e outros ainda, esgotados dos efeitos da bebedeira, sujos, de faces pálidas, lívidos e ainda a tropeçar e a gabar-se das festanças do dia anterior e tomando outro e outro cálice até o próximo amanhecer. Convém, meus amigos, convém manter a maior distância possível desse quadro triste, e ocupar-nos do que é melhor, para que nós próprios também não nos tornemos um triste espetáculo, motivo do riso alheio.

            Já se disse, e de forma muito apropriada, que “assim como a forja molda a lâmina, também o vinho molda o coração do orgulhoso” (1370).  Bebedeiras consistem em uso do vinho sem moderação, sendo a embriaguez o desequilíbrio resultante desse abuso; o mal-estar (κραιπάλη) que se segue a esses excessos recebe seu nome dos movimentos da cabeça de quem passa mal (κάρα πάλλειν).

            Tal vida (se é que se pode chamá-la de vida, uma vez que é gasta em ócio, em agitação por caprichos voluptuosos e em delírios debochados) é olhada pela divina Sabedoria com desprezo e ela ordena a seus filhos: “Não sedes beberrões de vinho, não gasteis vosso dinheiro com a carne; pois todo beberrão e todo fornicador será reduzido à mendicância, e todo vadio vestir-se-á com farrapos”. (1371) Todo aquele que está de olhos fechados para a sabedoria é um vadio. “E o bêbado”, ela diz, “vestir-se-á com farrapos e envergonhar-se-á de sua embriaguez diante daqueles que o olharem”. (1372 ) As feridas do pecador, qual furos no manto da carne, são o preço de seus gastos carnais; são os buracos abertos pela luxúria, pelos quais a vergonha da própria alma é vista. São feridas do pecado e por isso não será nada fácil consertar o manto furado, pois já está rasgado de todos os lados, e o tecido apodreceu com tanta lascívia. Está separado da salvação.

            Assim a sabedoria acrescenta essas palavras de advertência: “Para quem os ah? Para quem os ais? Para quem as contendas? Para quem as queixas? Para quem as feridas sem motivo?” (1373) Entendam, amigos,  o amante do vinho despreza a própria Palavra e abandonou a si mesmo dando-se à embriaguez. Vemos a ameaça lançada pelas Escrituras contra ele. E para adverti-lo ainda mais, acrescenta: “Para quem o vermelho dos olhos? Não são para aqueles que se agarram a seu vinho e buscam os locais onde ocorre a bebedeira?” Aqui as Escrituras mostram o amante do vinho como alguém já morto para a Palavra, pela menção aos olhos injetados de sangue, marca essa que os cadáveres apresentam, anunciando-se mortos para o Senhor. O esquecimento das coisas que conduzem à vida correta pesa a balança rumo à destruição. Com razão, portanto, o Instrutor, em Sua solicitude pela nossa salvação nos proíbe: “Não bebeis vinho até  embriagar-vos.” “Por quê?”, uns poderão perguntar. Porque, diz Ela, “tua boca falará coisas perversas e tu te verás no coração do oceano, como o timoneiro dum navio rodeado por ondas enormes”. Também a poesia vem em nosso auxílio e assevera que:

“Venha o vinho, que tem força igual à do fogo, aos homens.

Ele os agitará, como o vento do norte e o vento do sul agitam as ondas líbias.”

E ainda:

“A fala do ébrio de vinho revela qualquer segredo.

O vinho que desvia a alma é a ruína daqueles que o bebem”.

E mais, no mesmo espírito.

Vemos o perigo de naufrágio. O coração afoga-se com vinho em demasia. Os excessos da embriaguez são comparáveis portanto aos perigos do mar; são excessos nos quais o corpo, uma vez afundado como navio, desce às profundezas da torpeza, oprimido pelas fortes ondas do vinho; assim o timoneiro, a mente humana, é lançado nas águas da embriaguez, que se agitam mais e mais; e acaba sepultado na sarjeta do mar, cego pela escuridão da tormenta, tendo vagado para longe do abrigo da verdade, esmagado nas rochas marítimas, levado por suas próprias obsessões voluptuosas.

Com razão, adverte o apóstolo: “Não te embriagues com o vinho, no qual há muitos excessos”. Pelo termo excesso (ἀσωτία) é mostrada a inconsistência da embriaguez com a salvação (τὸ ἄσωστον). Pois se Ele transformou a água em vinho num casamento, Ele não deu permissão para nos embriagarmos. Ele deu vida ao elemento aquoso do significado da lei, preenchendo com Seu sangue o executor disso, que é de Adão, ou seja, o mundo todo; fornecendo piedade com a bebida da videira da verdade, a mescla da velha lei e da palavra nova, para que se cumpra o tempo predestinado. As Escrituras chamam apropriadamente o vinho de símbolo do sangue sagrado (1374); mas, condenando o bebericar grosseiro, afirmam: “Intemperado é o vinho e insolente é a embriaguez” (1375). É razoável, portanto, beber quando o tempo está frio, para espantar o torpor do frio; e em outras ocasiões, como remédio para os intestinos. Pois, assim como usamos comida para satisfazer a fome, também usamos bebida para satisfazer a sede, tomando todos os cuidados para não tropeçar: “pois o uso do vinho é perigoso”. Que seja pura nossa alma, e seca, e luminosa; a própria alma é mais sábia quando seca. Assim está em estado apropriado para a contemplação, quando não está umedecida pelos eflúvios que emanam do vinho, nem formando uma massa, qual uma nuvem. Não convém se dar ao trabalho de ir em busca de vinho chian, quando em falta, ou o ariousiano, quando não está disponível. Pois a sede é uma sensação de desejo, e anseia por meios cabíveis de se extingui-la e não de bebidas caras. A importação de vinhos estrangeiros só serve a um apetite enfraquecido pelo excesso, no qual a alma mesmo antes da embriaguez já está insana pelo desejo. Há o fragrante vinho de Tasos e o de Lesbos, e o doce vinho de Creta, o doce vinho Siracusa, e o mendusiano (um vinho egípcio), o vinho insular de Naxos (“o mais perfumado e saboroso”), outro vinho das terras italianas (1376). Muitos são os nomes. Para aquele que bebe vinho com moderação, um único vinho basta, aquele que foi cultivado pelo Deus único. Por que o vinho de seu próprio país não poderia satisfazer seus desejos? A não ser que também se esteja disposto a importar água, como os tolos reis persas! O Choaspes, um rio da Índia, do qual se dizia ter a melhor água para beber foi conquistado. Assim como o vinho, quando tomado, transforma os homens em seus amantes, também o faz a água. O Espírito Santo, falando pela boca de Amós, declara que os ricos são desgraçados por sua luxúria: (1377) “Aqueles que bebem vinho deitados em leitos de marfim, estendidos em sofás”, Ele diz. E acrescenta ainda mais em sua reprovação.

NOTA DO TRADUTOR: Aqui Clemente de Alexandria menciona vários vinhos mediterrâneos. O vinho chian é da ilha grega de Quios, no mar Egeu, e era muito apreciado na Antiguidade, tendo sido possivelmente o primeiro vinho tinto, na época chamado de “vinho negro”. O vinho ariousiano era considerado o melhor de Quios. Também era muito famoso o vinho de Tasos (outra ilha grega do mar Egeu), de corpo leve e aroma de maçã. A ilha grega de Lesbos, desde os tempos de Homero, tem tradição vinicultora, assim como Creta, cujo vinho adocicado era apreciado pelos romanos. Clemente de Alexandria também menciona o vinho de Siracusa (Sicília)


Deve-se tomar cuidado especial com o recato (1378) e decoro (assim como o mito representa Atena, seja ela quem for, que, em consideração ao recato, abandonou o prazer da flauta devido à figura constrangedora que faz uma mulher a tocar esse instrumento); da mesma forma devemos beber sem contorções da face, sem agarrar o copo avidamente nem mover ou revirar os olhos de forma inadequada antes de dar um gole; e igualmente não devemos esvaziar a taça dum só gole; nem beber deixando pingar no queixo ou na roupa enquanto se consome duma vez a bebida, ficando assim nosso rosto coberto pela taça, como que se afogando nela. Quem bebe assim com violência gorgoleja e acaba por engolir ar, como se estivesse a derramar bebida num vaso de barro. Com a rapidez da ingurgitação, a garganta faz um ruído, num vergonhoso e desagradável espetáculo de intemperança. A pressa em beber é também um gesto ofensivo aos convivas. Não se apressem em fazer o que é feio, amigos. Ninguém tomará a sua bebida. Ela é sua e esperá-los-á. Não tenham pressa em engolir, esvaziando a taça garganta abaixo. Sua sede saciar-se-á mesmo se o beber for mais devagar, observando o devido decoro e tomando em goles pequenos, de forma equilibrada. Aquilo que a intemperança deseja com tanta avidez não lhes será roubado pelo tempo.

“Não queiras ser forte”, dizem, “com o vinho; pois o vinho já derrubou muitos.” (1379) Os citas, os celtas, os ibéricos e os trácios, todos povos belicosos (p. 246), são realmente viciados em se embebedar e acham que isso é prática feliz e das mais honradas. Mas nós somos o povo da paz, e celebrando um gozo lícito, e não a perdição, tomamos goles sóbrios de amizade; que nossa amizade seja mostrada de forma a fazer jus ao nome.

De que forma pensam que Nosso Senhor bebia quando se tornou um homem por nossos pecados? De nossa forma desavergonhada? Ou não era com decoro e dignidade? Não era de forma correta? Pois não tenham dúvida de que Ele também tomava vinho; pois Ele era também um homem. E ele abençoou o vinho quando disse: “Tomai, bebei: este é o meu sangue”—o sangue da videira (1380). Ele diz, de forma figurada, da Palavra que foi“derrubado por muitos, para a remissão dos pecados”—e vertida, jorra. Fluxo sagrado de alegria. E que aquele que bebe deve manter a moderação Ele mostrou claramente pelo que ensinou nas celebrações. Pois ele não ensinava sob o efeito do vinho. E que foi o vinho mesmo que Ele abençoou, Ele mostrou mais uma vez quando disse a Seus discípulos: “Doravante não beberei mais desse fruto da videira até o dia em que o beberei de novo convosco no Reino de meu Pai.” (1381)  Mas que foi mesmo vinho o que Nosso Senhor bebeu, Ele mostrou mais uma vez, quando falou sobre Si mesmo, admoestando os judeus pela dureza de seus corações: : “O Filho do Homem”, Ele diz, “vem, come e bebe, e dizem: É um comilão e um beberrão, amigo dos publicanos.” 1382 Que nos lembremos bem disso ao lidar com aqueles que são chamados encratistas.

As mulheres, no entanto, que buscam ser graciosas, em seu beber devem evitar que seus lábios se abram demais ao beber em taças largas, escancarando as bocas ou bebendo de forma feia em alabastras estreitas demais. Umas, para beber lançam a cabeça pra trás e mostram o pescoço nu de forma indecente, em minha opinião; e bebem de jeito barulhento e desfigurando a garganta quando o líquido é engolido, como se

Nota do Tradutor: Os citas eram povos persas nômades e pastores. O termo é usado para referir-se a varias tribos tidas como bárbaras. São citados na Bíblia em Colossenses, 3:11.

[2] Nota do Tradutor: o encratismo é uma heresia cristã cuja origem pode remontar já aos tempo dos apóstolos e considera-se que perdurou até o final do séc. IV. Deriva da palavra grega que significa “moderado”, “contido”. Os encratistas pregavam o mais rígido ascetismo e opunham-se ao consumo de carne e vinho e ao matrimônio.

quisessem se mostrar ao máximo possível aos convivas; e ainda soluçam, que nem homens, ou melhor, que nem escravos em motim de luxúria. Nada vergonhoso convém ao homem, que é dotado de razão; e menos ainda convém à mulher, para quem a razão traz modéstia, até mesmo para refletir de que natureza ela é.

“Uma mulher embriagada é uma grande Fúria”, diz-se, como se uma bêbada fosse a Fúria de Deus. Por quê? “Porque ela não resguardará sua vergonha” (1383). Pois a mulher é rapidamente impelida à licenciosidade se tomar suas decisões com base apenas nos prazeres. Nós não proibimos beber de alabastra mas proibimos beber assim sem mais ninguém por ser egoísmo. Aconselhamos que as mulheres usem para beber o que estiver disponível, indiferentemente, e que cortem pela raiz os apetites perigosos que possam ter. Que deixem sair o ar que é regurgitado (quando é produzindo o soluço) de forma discreta e silenciosa.

De forma alguma se deve permitir que as mulheres exibam qualquer parte de suas pessoas e assim caiam, deixando os homens excitados de olhar, dessa forma atraindo para si os olhares masculinos.

Que sempre nos comportemos como se na presença do Senhor, e que Ele nos diga, como disse indignado o apóstolo aos Coríntios: “Quando vos reunis assim, já não é para comer a ceia do Senhor.” (1384)

Em minha opinião, a estrela chamada pelos matemáticos de Acephalus (sem cabeça), que fica antes da estrela errante, a cabeça repousada em seu peito, é um tipo do glutão, do voluptuoso e daqueles inclinados à bebedeira. Pois nesses (1385) a faculdade da razão não está situada na cabeça mas entre os apetites intestinais, escravizada pela luxúria e pela ira. Pois assim como Elpenor quebrou seu pescoço embriagado, (1386) também o cérebro, tonto de embriaguez, é levado a cair e assim cai no reino do fígado e do coração, isto é, da voluptuosidade e da raiva; assim dizem os poetas que foi jogado Hephæstuspor Zeus do céu para a terra (1387). “As aflições da insônia, bile e cólicaacompanham o homem insaciável”, diz-se (1388).

Por isso também a embriaguez de Noé foi escrita para que com a descrição clara de sua transgressão diante de nós pudéssemos nos guardar com toda força contra toda embriaguez. Por essa razão, aqueles que cobrem as vergonhas (1389) de sua embriaguez são abençoados pelo Senhor. Assim sendo, as Escritura expressam-no em uma palavra: “Para um homem instruído basta um pouco de vinho e ele repousará em sua cama” (1390).

Na Antiguidade eram artigos de luxo, usados principalmente como recipientes para azeites perfumados ou óleos de massagem (daí a associação com a luxúria) mas também para o vinho.

Nota do Tradutor: “Matemáticos” é como também eram chamados os astrólogos.

Nota do Tradutor: Elpenor era um dos companheiros do herói grego Odisseu (ou Ulisses, em latim). Era de pouca inteligência e, bêbado, subiu no telhado da residência da feiticeira Circe para dormir. Ao acordar no outro dia ouvindo que seus companheiros estavam partindo, esqueceu-se de que estava no alto do telhado e correu para alcançá-los, vindo assim a falecer da queda. Odisseus e seus homens notaram sua ausência, mas não voltaram para procurá-lo. Mais tarde sua alma encontra-se com Odisseus e cobra-lhe um enterro apropriado.

[4] Nota do Tradutor: Hefesto (ou Vulcano, para os romanos), o Ferreiro. Deus grego do fogo, metalurgia etc. Nascido coxo foi por esse motivo lançado do alto da morada dos deuses (o Monte Olimpo) por sua mãe, a deusa Hera. Caiu no mar e foi socorrido por ninfas e por elas criado numa caverna. É uma divinda irada e de aspecto feio.

 

Tradução minha, da versão em inglês.

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